segunda-feira, abril 06, 2009

Os Maias, no Trindade...


1868. João da Ega e Carlos da Maia chegam ao Teatro da Trindade de coche, chapéu alto e luvas como qualquer cavalheiro do seu tempo. No camarote, tal como relata Eça de Queirós no romance Os Maias, assistem ao sarau de beneficência, com declamação de poesia e peças de piano.


2009. No Teatro da Trindade, Rui Mendes encena uma "versão" de Os Maias. O sarau de beneficiência transforma-se em cena de abertura, personagens e espectadores chegam ao teatro quase lado a lado, o espaço da acção e o espaço da representação confundem-se propositadamente. "Esta é a cena crucial, que transforma um romance de aventuras numa tragédia", explica António Torrado, responsável pela transformação do romance na peça de teatro Os Maias no Trindade. É no final do sarau que surge a revelação: Carlos da Maia (o actor José Fidalgo) e Maria Eduarda (Sofia Duarte Silva), os dois apaixonados, são, afinal, irmãos.
Mas a peça, tal como o livro, não se esgota na história de amor. Ali está a crítica de costumes, tão actual, de um país "à beira da bancarrota". "Evito o termo adaptação porque não fazemos uma mera transcrição. O que apresentamos é uma versão, a nossa interpretação, mais ou menos livre, com todo o respeito pelo Eça", diz António Torrado. Excluem-se cenas, eliminam-se personagens, altera-se a ordem da narrativa. Mantém-se o espírito da obra e até se ganha um narrador, um fabuloso João da Ega interpretado por José Airosa. Este é o retrato de uma geração sem forças para agir: "Todos os esforços são inúteis", concluem os dois amigos. "Não ter apetites para não ter desilusões."


E não é que vale mesmo a pena gastar 10 ou 15 euritos para ver este espectáculo?! Vale mesmo... uma produção simples mas muito concisa, muito perceptível e em grande parte respeitadora do seu fundo literário... Menção especial para as personagens de Carlos da Maia, João da Ega, Damaso e Maria Eduarda, que muito nos fizeram rir, sonhar e suspirar (quem me dera a mim, um Carlos da Maia na minha vida!...)

1 comentário:

Machacaz disse...

Mas então... se querias um Carlos Eduardo na tua vida... e atendendo à tragédia grega... querias tu mesmo um Carlos da Maia?